Um Estranho no Ninho

A última hora

Março 5, 2008 · Deixe um comentário

Era pouco mais de meia-noite quando senti uma necessidade irrefreável de dizer adeus àquelas pessoas na festa.
Durante muito tempo em minha vida eu não senti vontade de ter tanta gente assim à minha volta e agora, às vésperas de partir, me surpreendi ao ser consumido por uma sensação de saudosismo destes amigos, e até mesmo dos que eu não considerava amigos, antes mesmo de deixá-los.
Se é verdade o que dizem, que só aprendemos a dar valor às coisas e às pessoas depois que as perdemos, então eu me tornara uma exceção naquele instante.
Senti saudades e quase me arrependi da minha decisão de ir embora.
Mas claro que isso não me fez mudar de idéia e, para afastar esses pensamentos, subi em cima da mesa da sala e pedi a atenção de todos, pois queria dizer algumas coisas.
A maioria, sob o efeito do álcool, assoviou e bateu palmas enquanto eu aguardava, simulando constrangimento, até que finalmente silenciaram.
Primeiramente – disse eu – agradeço a todos vocês. Acho que ninguém aqui tem idéia do quanto isso é importante para mim, ter a presença de tantos amigos e colegas nesta despedida. Muito obrigado mesmo. Principalmente aos que me ajudaram na organização disso tudo… Jonas, Eduardo e Mariana, também Sílvia e Patrícia. Obrigado por tornarem esse momento inesquecível pra mim. Talvez a maioria de vocês não entenda os motivos que me fizeram decidir ir embora, mas entenderão mais cedo do que imaginam. Só saibam que, independente do rumo que cada um aqui seguir, eu sempre serei grato a todos vocês por terem feito parte de minha vida aqui nesta cidade que aprendi a amar. Agora, antes que eu comece a chorar, quero finalizar dizendo que se eu não consegui realizar alguns de meus sonhos aqui, pelo menos posso partir com a certeza de que tive ótimas companhias na maior parte do tempo. Gosto de todos vocês. Agora, tenho que mijar.
Novos aplausos enquanto desci da mesa. Algumas pessoas riam da minha frase final, outras mais emotivas disfarçavam as lágrimas.
Recebi uns cumprimentos e abraços no caminho até o banheiro e, ao entrar e fechar a porta, encostei na parede respirando profundamente e me sentindo aliviado, como se tivesse tirado um peso das costas.
Então, foi como se tudo aquilo que aconteceu segundos atrás tivesse simplesmente desaparecido.
Apesar do volume da música e das vozes que, mesmo abafadas pela porta do banheiro, continuavam altas, pela primeira vez naquela semana eu havia finalmente encontrado alguns segundos de alívio.
E após o alívio, senti medo, como há muito tempo não sentia.
Chegara a hora de partir.
Tirei minha carteira e meu relógio, colocando sobre a tampa da privada.
Abri a carteira e retirei um bilhete que já havia escrito antes. Não reli, para não permitir a chegada de qualquer tipo de arrependimento.
Deixei o bilhete debaixo do relógio.
Me olhei no espelho e percebi o cansaço em meu rosto e, no fundo dos meus olhos, a triste confirmação de que partir era a melhor decisão a tomar.
Lembrei de meus pais. Meus irmãos. Eles estariam me esperando.
Não senti vontade de chorar, apesar de achar que seria apropriado para a ocasião. Simplesmente não consegui.
Então, abri a torneira e molhei meu rosto, olhando no espelho o efeito das falsas lágrimas.
Pensei na ironia disso, minha vida inteira foi cercada por emoções vazias e tristes, e nada mais apropriado que eu fingir um choro para mim mesmo, apenas como um escape para que eu me sentisse mais aliviado naquela despedida particular.
Aliviado por demonstrar no falso choro a falta que meus pais e meus irmãos faziam pra mim, desde que se foram.
Ninguém na festa, nem mesmo meus amigos de verdade, perceberam a coincidência da data. Agora, quase uma da manhã, fazem exatamente três anos.
Suspirei, enquanto olhava meu rosto molhado.
Balbuciei uma frase sem sentido, de um filme que eu gostava muito.
Pela última vez senti vontade de fazer aquilo na frente de todos, como uma cena de impacto na vida, pra variar. Mas preferi enfrentar sozinho, até porque provavelmente eu não teria coragem de fazer na frente dos outros.
Tirei do meu bolso a faca e cortei meus pulsos, e depois meu pescoço.
Antes de morrer, ouvi alguém batendo na porta.
O barulho me fez lembrar de quando eu me trancava no banheiro com revistas de mulher pelada e minha mãe ou meus irmãos ficavam batendo na porta, insistindo pra eu sair rápido do meu suposto banho.
Meu último gesto foi esboçar um sorriso, pela lembrança.

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Fios Brancos

Março 3, 2008 · Deixe um comentário

Hoje olhando no espelho descobri
os fios brancos que começam a se espalhar
Lembranças disfarçadas no couro cabeludo esvaindo em minha cabeça lentamente

Fugitivos da memória
escondidos em filamentos capilares
esperando o corte do metal para escapar flutuando até o chão de algum salão

Em cada um dos fios brancos vi uma história
Sobre à orelha esquerda estava eu entre deveres escolares
na mesa da cozinha enquanto minha mãe contava o tempo para assar um pão

Acima do olho esquerdo percebi
na entrada que prevê a futura calvície que vou herdar
meu pai preparando o churrasco num fim de semana bem quente

Pensei sobre o que me fazia associar os fios brancos com tudo isso.

Virando para direita estavam elas
pouco acima do pescoço
minhas irmãs dormindo ainda crianças em suas camas no quarto vizinho ao meu

Momentos de alegria
em cada fio que surgiu devagar,
ano a ano, tingindo de branco o meu tom castanho-escuro.

Meus tios e tias,
primos e avós em algum lugar,
também os amigos das fases distintas que eu sentiria falta no futuro.

Depois de ver cenas tão belas
decidi não fazer alvoroço
aceitei o passado fragmentado em cada fio branco que em mim nasceu.

Então joguei a loção de tingir o cabelo no lixo.

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Na Escuridão

Fevereiro 29, 2008 · 2 Comentários

Escuridão.
Abro meus olhos, procurando por alguma luz… mas só há Escuridão.
Não me sinto bem em lugares escuros, fechados.
Mas nesse momento eu não estou preocupado. Pois é uma Escuridão diferente.
Não há som.
É terrível imaginar uma situação assim: escuridão sem som. Mas, apesar do meu desconforto neste momento, não estou descontrolado. Não, estou até calmo. E curioso.
Como vim parar aqui?
O quê é aqui?
Onde?
Tento lembrar da noite passada, mas não vem imagem alguma.
Além disso, minha cabeça dói.
Interessante… Com todo esse silêncio, com essa noite sem estrelas.. e eu só estou preocupado com minha amnésia e dor de cabeça.
Não consigo lembrar que dia é hoje. Perdi a noção do tempo. Não sinto fome, então ainda deve ser cedo.
Tento me concentrar em alguma coisa… esposa, filhos, casa, emprego, cachorro, carro, em qualquer coisa pra aliviar a dor de cabeça.
Mas não consigo fixar o pensamento.
Tento criar, em minha mente, alguma luz. Ou reproduzir algum som.
Só então percebo que não “sinto” minha voz.
Acho que não estou conseguindo falar nada também. Não tenho certeza, pois não consigo ouvir.
O que é isso? O que aconteceu comigo? Fiquei surdo? Mudo?
Não sinto as cordas vocais. E então, me dou conta de que nunca senti antes minhas cordas vocais, quando falava algo e ouvia minha voz. Não saberia reconhecer em algum momento, como este, se elas estivessem vibrando durante minha tentativa de falar. É inútil.
Pela primeira vez me sinto assustado. Surpreso.
Mas logo passa.
Sempre fui ensinado a controlar meus nervos diante de uma situação nova.
Manter a calma. Faço isso muito bem.
Começo uma contagem na minha mente, de números seqüenciais – uma das maneiras que me ajudam a manter o controle: 1, 2, 3, 4, 5….. Quando estou no número 842, uma imagem aparece em minha mente.
Uma placa de carro. Não consigo identificar a cidade; só vejo esses três dígitos finais. 842. Sei que é um carro, mas não identifico o modelo.
A imagem some e volta o breu.
Tento descobrir o que poderia ser aquela placa.
Finalmente ouço um som.
Um choro.
Pelo tom de voz, parece ser uma mulher.
Chora baixinho… distante… Com essa escuridão, o choro se torna angustiante e sinistro.
Mas não sinto medo. Sinto apenas pesar por não conseguir ver a origem desse lamento.
Gosto de ajudar pessoas. Sempre gostei.
Principalmente quando estão chorando.
Eu acho que teria sido um bom padre. Tento rir ao pensar nisso e não consigo sentir meus músculos do rosto. Mas a risada em pensamento também é gostosa.
Contrasta com o choro distante.
Súbito, o choro pára. E novas imagens se formam em minha cabeça.
Muitas imagens. Rostos, objetos, corpos vestidos, relógios, velocímetro, céu, lua, uma seqüência de imagens de uma só vez, como em um vídeo-clipe psicodélico.
A dor de cabeça aumenta. Se eu estivesse sentindo meu estômago, talvez ficasse enjoado.
Muitas outras imagens em seqüência.
Perco a conta dos corpos vestidos e rostos diversos.
Será que são as pessoas que eu conheci na vida?
Será que isso é algum sonho/pesadelo causado por algum remédio?
Será que estou morto?
Me assusto com estas possibilidades. E quase perco o controle sobre o medo.
De repente as imagens somem e, na Escuridão, só existe visível, em letras brancas enormes, aquele número: 842.
O quê é isso?
A Escuridão total volta. Por alguns segundos, acho eu.
Então vem uma luz branca.
Envolvente. Rápida. Poderosa.
Absorve toda a Escuridão. Machuca minha mente, aumenta a dor de cabeça.
Com a Luz surgem novas vozes. Duas. Uma mulher e um homem.
Mas eu ainda não vejo pessoa alguma.. ou paisagem.. nada.
Só o branco. Intenso. Doloroso. Tranqüilizador.
Pelas vozes percebo que estão conversando, mas eu não consigo entender o diálogo.
Apenas identifico algumas palavras aleatórias.
…cuidado… …sabemos… …começo… …lágrimas… …entende… …filha… …fé… …sofrendo… …depende… …acidente…
Me preocupo com essas palavras. Finalmente começo a ver novas imagens.
Minha casa. Minha esposa do lado de fora, de pé, olhando pra mim.
De repente, volta a enxurrada de imagens sem sentido.
Rostos, objetos, corpos vestidos, relógios, velocímetro, céu, lua.
O Branco total volta.
Surge um carro.
Suas rodas se movem, mas o carro está parado, voando no nada.
Tento ver lá dentro, quem está dirigindo.
Vejo a mim mesmo.
E ao meu lado minha esposa.
Só então identifico meu próprio carro.
Procuro a placa, e vejo os três dígitos finais: 842.
Claro… como pude esquecer a placa de meu próprio carro?
Mas o quê significa aquilo?
Vejo a resposta se formando quando surge uma paisagem.
Uma rua.
O carro andando, em velocidade normal, na rua vazia.
É noite. A lua está Crescente.
Já não sou mais um espectador; agora estou DENTRO do carro. Dirigindo.
Sinto o volante em minhas mãos. Mas não consigo frear o carro, ou virar a direção para algum lado.
Sou guiado pelo meu sonho.
Olho para o lado, e minha esposa está fixa na estrada.
Ela se vira para mim e pergunta – finalmente ouço uma voz conhecida – algo sobre trânsito.
Eu não entendo totalmente a pergunta, mas ouço ela falar trânsito.
Olho pelo retrovisor, imaginando se meus filhos estariam sentados no banco traseiro.
Mas não vejo nada através do espelho. Nenhum reflexo.
Tento me virar pra trás, mas não consigo.
Pergunto a minha esposa dos nossos filhos, mas ela não me responde.
Nem esboça reação.
Tento outra pergunta.
Ela nem se vira para mim.
Acho que ela não pode me ouvir.
Tento aumentar a voz, mas não dá resultado.
Grito. E nada. Ela continua olhando pra frente.
A rua está vazia.
A lua no céu está Crescente.
Penso no início do meu sonho, na Escuridão e silêncio total.
Agora só há Silêncio.
O carro aumenta a velocidade ao chegar em uma parte da rua sem curvas.
Não gosto de perder tempo, por isso não tento frear o carro nesse trecho.
Ao passar por um cruzamento, com o sinal aberto, sinto um golpe forte no lado direito.
Minha esposa é jogada sobre mim.
O vidro frontal se estilhaça, o painel do carro contorce e quebra.
Mas não há som.
Silêncio total.
Sinto dor de cabeça, e olho pra minhas mãos.
Muito sangue sobre elas.
Começo a me desesperar e vejo minha esposa, sem movimento, com a cabeça pendendo pro meu lado.
Desacordada.
Chamo por ela, mas eu mesmo não ouço minha voz.
Tento abrir a porta do carro, que também está muito contorcida e aparentemente emperrada. Mas não consigo mexer meu braço.
Olho através do vidro quebrado. Luzes começam a piscar.
Tento sair, mas não consigo mover nenhum músculo.
Penso que estou preso no cinto de seguranças, mas percebo que a coisa é pior.
Não consigo mais mover sequer a cabeça.
Começo a ficar ofegante; preocupado.
Vejo alguns vultos passando através das luzes piscantes.
Grito por ajuda.
Por socorro!
Mas não ouço minha voz.
Começam a aparecer diversas pessoas… diversos rostos… diversos corpos cobertos…
Olho o painel do carro. O velocímetro quebrado. O relógio do carro, parado. 20:42. 842.
Lembro do céu. Da lua. Crescente.
Toda essa cena some.
A Escuridão volta, engolindo tudo.
Começo a entender meu sonho.
Trata-se de uma coincidência. Infelizmente, uma trágica coincidência.
Começo a sentir uma dor profunda em todo o meu corpo. A dor percorre cada centímetro, até se fixar em minha nuca.
Ouço novas vozes, dessa vez de cinco pessoas diferentes.
Quatro masculinas, e uma feminina.
Nenhuma dessas vozes está triste, ou chorosa.
Pelo tom da conversa descubro que são médicos.
Discutem a melhor maneira de fazer uma cirurgia em um corpo inerte.
Imagino que seja o meu corpo.
Penso no que pode ter acontecido com minha esposa.
Sinto vontade de chorar mas não sinto meu rosto, meus olhos ou sequer minha cabeça.
Apenas sinto a dor pontiaguda onde seria minha nuca.
Profunda. Violenta.
Tento gritar, gemer, emitir algum som que me alivie a dor.
Mas só há Silêncio novamente.
Voltam as vozes dos médicos.
Diagnosticaram uma fratura na coluna cervical.
Discutem como operar.
Penso em minha esposa; ela deve ter falecido no desastre.
Mesmo não sendo por culpa minha, me sinto responsável.
Então, pela primeira vez, choro em minha mente.
Tento me lembrar do rosto dela.
Não consigo controlar meu pensamento.
Volta o vídeo-clipe de imagens ininterruptas.
Rostos, objetos, corpos vestidos, relógios, velocímetro, céu, lua.
Rostos angelicais, objetos brancos e dourados, corpos vestidos de túnicas, relógios flutuando se desfazendo ao vento, velocímetro desaparecendo, céu escuro sem estrelas, lua Crescente se tornando Cheia.
Começo a entender meu sonho.
Olho fixamente pra lua – agora Cheia – e surge uma cena, como em uma tela de cinema.
A lua se torna gigante, ocupando todo o espaço de minha visão na noite sem estrelas.
Vejo um filme, as imagens sem foco definido… embaçadas.
Identifico uma sala de cirurgia, com cinco pessoas de pé, ao redor de uma pessoa deitada de bruços em uma cama.
Não vejo os rostos.
Mas as pessoas de pé – médicos, deduzo – estão em atividade frenética.
Mexendo no corpo deitado. Trabalhando em suas costas.
Imagino que seja uma cirurgia em mim.
Estou ME vendo. Sendo operado. Sendo salvo.
Como em um filme, a cena sofre uma edição: a cirurgia acaba, e os médicos estão ao redor do corpo, já deitado de costas, em repouso, com vários aparelhos e tubos ligados/conectados.
Os médicos conversam, mas eu não entendo o que eles falam.
Uma nova edição na cena mostrando a pessoa permanece deitada na cama, ainda não posso ver seu – MEU – rosto.
Duas outras pessoas estão na sala, uma sentada e a outra de pé, ao seu lado.
Identifico as vozes: uma mulher chorando e um homem conversando com ela.
As mesmas vozes que ouvi neste sonho, pouco antes.
Ouço o diálogo… identifico algumas palavras… as mesmas de antes.
…cuidado… …sabemos… …começo… …lágrimas… …entende… …filha… …fé… …sofrendo… …depende… …acidente…
Não entendo a cena. Nem o diálogo.
A dor na região onde fica minha nuca é insuportável. Parece que vou explodir.
Tento me concentrar nas pessoas da sala.
Então a imagem começa a ficar com foco definido.
Identifico a mulher: minha esposa.
O homem, de semblante cansado e experiente, parece ser um médico.
Ouço nitidamente a conversa agora:
“O tratamento exige cuidado redobrado a partir de agora. Ainda não podemos prever as seqüelas desta cirurgia em seu marido. No início da operação, os danos na coluna pareciam irrecuperáveis, mas conseguimos um resultado muito bom, graças principalmente à urgência com que vocês foram atendidos. O jovem que acompanhou vocês, o causador do acidente, estava muito abalado e queria acompanhar todo o processo. Felizmente ele não teve muitos danos físicos, mas pareceu profundamente abalado e arrependido. Veja bem, isso não justifica o acidente, mas acho que você entende o sofrimento do rapaz que perdeu a filha nesse desastre também. Espero que compartilhem apenas desejos de melhoras para seu marido e para a esposa do rapaz, que também está em recuperação de cirurgia. Mas, sobretudo, que tenha fé na recuperação do seu marido. Imagino o quanto esteja sofrendo mas saiba que agora não depende mais de você e nem de mim a recuperação de seu esposo. Os aparelhos mantêm ele respirando, mas sair do coma em que se encontra só está ao alcance dele mesmo. Para você resta apenas rezar, acompanhar a recuperação um dia de cada vez, e torcer para que esse acidente não seja mais prejudicial do que já está sendo. Agora vou deixá-la um pouco sozinha, mas estou em minha sala se precisar de qualquer coisa.”
Começo a entender meu sonho.
Uma nova edição na imagem: vejo pela janela que é noite. Algumas pessoas estão muito agitadas correndo por um corredor. Não reconheço nenhuma destas pessoas.
Entram muito rápido em um quarto, onde uma mulher – minha esposa – chora desesperada, apontando para uma pessoa deitada imóvel em uma cama. Ela aponta para mim.
Não ouço vozes. Não ouço o choro. Não ouço barulho nenhum, exceto um bipe ininterrupto..
A dor em minha nuca pára, de repente.
Entendo o que aconteceu. O bipe significa que os aparelhos não conseguiram me manter vivo.
Triste, percebo que não poderei mais abraçar minha esposa.
Morri naquela noite.
Os médicos tentam, em vão, reanimar meu corpo.
As imagens desaparecem lentamente, como fumaça.
A lua, minha tela desse filme, some.
Tudo some. Resta apenas a Escuridão.
Profunda. Densa. Poderosa.
Penso no que acontecerá comigo agora.
Pra onde vou? Será que verei Deus?
Só existe Escuridão.
Até que, depois de alguns momentos, vejo algo na Escuridão.
Um ponto minúsculo, branco.
Uma Luz!
Começo a me animar quando a Luz vai crescendo lentamente.
Absorvendo a Escuridão aos poucos.
Começa a brilhar com intensidade, à medida que vai se tornando maior.
A Luz já ocupa metade da Escuridão, quando ouço uma Voz feminina suave: “A dor parou?”
Não ouço minha própria voz, mas respondo em pensamento: “Sim.”
A voz pergunta: “Onde acha que você está?”
“Não sei. Imagino que seja algum tipo de purgatório”, penso eu em resposta.
A Voz feminina desaparece, sem me confirmar.
A Luz já ocupa quase toda a Escuridão. Brilhando intensamente.
Percebo que não é a Luz que está crescendo..
EU é que estou caminhando em sua direção, me aproximando cada vez mais.
Me sinto muito feliz. Como jamais me senti antes.
Acho que é a Paz que todos desejam aos que falecem.
Vejo um portão dourado, imponente. Enorme.
Ouço algo inesperado pra mim, naquelas circunstâncias: canto de pássaros silvestres.
Meu Deus… será o Céu? O Paraíso? – penso eu.
Lembro de minha esposa.
Olho pra trás, mas só vejo a Escuridão.
Penso em dizer a ela o quanto me sinto bem… feliz… e o quanto amo cada momento que passei com ela e meus filhos. Espero que ela tenha escutado meu pensamento.
Mas acho que ela sabe disso tudo.
Sempre soube.
Olho para o Portão dourado. E ouço a Voz feminina me dizendo, enquanto o Portão se abre lentamente: “Bem vindo de volta. Sentimos sua falta.”
Sorrio, em paz.
E percebo que já não estou mais sonhando.

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Comida e Bebidas

Fevereiro 27, 2008 · 1 Comentário

Desvendei um de seus segredos.

Já reparei como você se torna criança, diante de mim.

Em como se move com afobação enquanto fala sobre tudo, com eloquência de adulto e ansiedade de criança.

Ansiedade de quem raciocina rápido mas fala devagar, se perdendo na trajetória do pensamento que foge tão rápido de sua mente acelerada antes que possa chegar na ponta da sua língua e pular, pelo ar, até meus ouvidos. Essa ansiedade típica de criança é parte intrínseca de você.

Mas isso não significa que você não tenha maturidade – pelo contrário, às vezes sou eu quem se sente aprendiz diante de seu discurso lúcido ou seu depoimento pessoal a respeito de algum assunto que dialogamos. Ou que discutimos.

Sim, porque somos adultos que em vários momentos se completam, mas temos personalidades e pontos de vista diferentes. Somos aprendizes um do outro. E discutir é parte do aprendizado.

Quase sempre você é quem perde a discussão, mas tem a humildade pra assumir o erro e pedir perdão. Não que eu nunca erre; apenas penso um pouco mais antes de falar. Afinal, tenho meus segredos também.

E alguns você desvenda tão facilmente que me assusta. Outros, no entanto, você sequer imagina que eu possua. Ou imagina, mas mostra sua paciência nisso também, esperando a hora certa para se revelar ou para me fazer uma daquelas suas perguntas que me desarma.

Aliás, como você pergunta, hein?

Essa faceta curiosa, essa meninice, é intrigante. Em uma pessoa tão bem esclarecida como você, é até natural essa curiosidade. Mas não deixa de ser intrigante que, em alguns assuntos específicos, sua opinião seja tão simplista. E, após ouvir a minha opinião mais complexa, você sempre dispara sua metralhadora de questões.

E eu respondo. Você sabe que eu adoro responder, expor minha opinião. E também replicar novas perguntas.

Essa brincadeira intelectual, que alguns podem até achar chata, nos deixa tão ligados que, quando nos damos conta, já está amanhecendo.

Mais uma noite sem dormir.

Mais uma noite muito bem aproveitada.

Talvez da próxima vez a gente consiga assistir aquele filme que você recomendou… ou talvez não. Talvez não dê tempo, pois pode ser que nosso diálogo se desenvolva por assuntos que vão te fazer chorar de novo, ou me trazer recordações a ponto de me emocionar e sentir os olhos marejados. Ou talvez nos acabemos de tanto rir, como em outras vezes.

Não dá pra saber.

Nossa vida não é um roteiro pré-estabelecido, então nunca dá pra planejar o rumo da prosa.

O que dá pra planejar é a comida. E, da próxima vez, você faz.

Eu levo as bebidas.

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Memórias

Fevereiro 26, 2008 · 1 Comentário

Quando ela sorria, o mundo parecia melhor.

Não pela beleza geométrica de seus dentes – até porque eles não eram talhados em formas retas e precisas, como aqueles sorrisos de modelos em propaganda de pasta de dente – mas, simplesmente, porque seu sorriso exalava a bondade enorme que ela possuía dentro de si.

E quanta bondade cabia dentro daquela pessoa!

Não que ela fosse alheia à maldade dos outros, pelo contrário, ela parecia ter um radarzinho na cabeça que apitava tão forte quando conhecia alguém “de má índole”, como ela dizia. E não é que o radar funcionava mesmo? Quando cismava com alguém, ela não errava.

Mas mesmo assim ela acreditava nas pessoas.

Era capaz de enxergar as boas intenções mesmo quando alguém a tirava do sério. O que não era fácil de acontecer mas, quando acontecia, sai de baixo!

Ela era impulsiva.

Seu rosto realçava a firmeza em seus traços normalmente sérios enquanto ela se enfurecia de tal forma que seria fácil pensar que ela nunca nos perdoaria. Mas, se prestássemos atenção no fundo de seus olhos, veríamos que, mesmo nesses ímpetos de fúria, estava lá ainda, nas pupilas, aquela bondade enorme.

Talvez ela só conseguisse esconder essa bondade quando percebia que alguém estava mentindo. Ela não tolerava mentiras, sob nenhum aspecto. Dizia que mentiras são desnecessárias quando existe o respeito entre as pessoas.

Ela era muito inteligente mas se recusava a aceitar que, em alguns momentos, uma mentira é mais benevolente e necessária que uma verdade.

Ela era ingênua. Ou pura demais, sua mente não havia sido corrompida pelo cinismo e crueldade da sociedade.

Mas era muito boa.

Era impraticável não se deixar envolver por seu carinho, por sua asa protetora e amável.

Era praticamente improvável não se importar com ela.

Era definitivamente impossível não sentir falta de seu abraço, de seu toque acalentador e de suas palavras confortantes como um cobertor quentinho numa noite de inverno.

Ela era culta, discreta, insegura, observadora, tímida até. Mas nós sabíamos como ela era com as pessoas em que confiava… ela revelava seu humor refinado, por vezes irônico e ácido, mas sempre com boas intenções. Ela era a definição de uma boa intenção.

Parecia que Deus a criou para isso, para mostrar a nós, mortais desiludidos, que havia ao menos uma alma de boa intenção no mundo. Era uma amostra de fé na bondade humana.

Não, claro que ela não era perfeita.

Mas era inegável sua prestatividade, estava sempre presente quando alguém precisava de um favor, mesmo que fosse apenas conversar.

Hoje me sinto envergonhado ao imaginar quantas vezes ela devia se sentir sozinha, isolada, quando nenhum de nós se preocupava em ao menos telefonar para saber sobre ela, ou simplesmente perguntar “você está bem?”. Sinto que fomos ingratos.

Claro que, por muitas vezes, ela fazia questão de frisar essa preferência por se manter afastada, em sua discrição, não interagindo conosco com mais frequência. Aliás, que eu me lembre, raramente alguém foi convidado a ir em sua casa. Certa vez ela me disso que não convidava as pessoas porque não era uma boa anfitriã. Talvez ela achasse o seu auto-isolamento ocasional algum tipo excêntrico de charme. Eu prefiro acreditar que ela apenas gostava e precisava de um tempo pra si mesma, às vezes. Só ela e seus pensamentos.

E ela fervilhava pensamentos. Idéias dos mais variados tipos, comuns, geniais, infames, ousadas, bobas, fantásticas. Nisso ela não era muito diferente de mim ou de você. Em fervilhar pensamentos.

O que a diferenciava era a fé que ela tinha em quase todos aqueles pensamentos, aquelas suas idéias. Ela era capaz de criar uma história mirabolante em sua cabeça, a partir dos motivos mais banais e cotidianos.

Me dava a sensação que sua imaginação era um cavalo selvagem que corria pelo mundo, incansável, indomável e solitário.

Ela, vez em quando, passava esses arroubos de imaginação pro papel. Era sonhadora. Era ingênua. Era feliz assim.

Gosto de pensar que ela era feliz. Pois ela merecia ser feliz.

Às vezes penso nela, com um peso crescente que vai do meu peito para minha garganta. Com uma certa angústia e arrependimento porque, quando ainda podia estar ao lado dela, não aproveitei as oportunidades para dizer como ela me fazia bem, como era um privilégio sublime sentir um pouco daquela aura especial que ela exalava.

Hoje é só saudade que me acompanha, quando penso nela.

Aquela saudade fria, aguda, que traz um cheiro de terra molhada até o nariz e um saudosismo doce de um tempo que poderia ser eterno. Uma saudade de chuva.

Ela disse que vem pra cá no fim do ano. Eu acredito e tento controlar a ansiedade para sentir novamente aquela paz viciiante que seu abraço traz.

Mas o fim do ano está longe, tanta coisa pode acontecer antes… E o tempo passa devagar pra quem deseja muito.

Por isso, hoje, espero simplesmente que ela esteja bem… e que esteja pensando em mim tanto quanto eu penso nela e naquele sorriso cheio de bondade.

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Um Sonho

Fevereiro 25, 2008 · 1 Comentário

Era só um sonho.

Mas o tipo de sonho que faz você suar; se contorcer de ansiedade, de dor, dando cãimbras em alguns músculos.

Tudo parecia tão real, mas ele sabia… era só um sonho.

Um belo casarão, com um quintal enorme a frente. Na entrada do casarão, ela o aguardava. Ele não conseguia ver seu rosto mas sabia que era ela, por causa do seu perfume inconfundível.

E sua certeza foi confirmada quando ela o saudou:

“Obrigada por ter vindo.”

Ele não respondeu. Queria falar e as palavras não saíam de sua boca.

Apenas acompanhou sua anfitriã, assim que ela entrou pela bela porta do casarão.

Passaram por uma sala elegante, com móveis bonitos e decoração sóbria, e alguns corredores. Cada um destes cômodos tinha uma cor característica e decoração diferente. Era uma casa enorme.

Sentia-se em um labirinto.

Mas não pressentia perigo algum, estava calmo. Ele sabia que era um sonho.

Caminharam por alguns minutos em silêncio absoluto que só foi interrompido uma vez quando, ao entrarem no corredor principal, ela indicou uma porta branca no fim do corredor:

“Está no quarto.”

Então ele percebeu uma música distante, enquanto caminhavam pelo corredor principal. Não conseguiu distinguir de imediato mas, assim que se aproximavam da porta no final do corredor, ele reconheceu a canção.

E teve medo de prosseguir.

Ela percebeu o receio dele e pegou suas mãos:

“Não tenha medo. Tudo está esclarecido e resolvido.”

Ele não acreditava… mas sentiu o conforto das palavras. Estava tudo esclarecido? O que estava esclarecido?

Hesitante, decidiu seguir.

Pararam em frente a porta. A música estava nítida, apesar de abafada pela porta. O coração dele parecia querer abrir seu peito e explodir, de ansiedade.

Ela abriu a porta do quarto e entraram juntos. A música preenchia o ambiente.

‘…depois de te perder, te encontro com certeza…’

Ele sabia que, apesar de tudo apontar para o contrário, aquilo era apenas um sonho.

‘…talvez no tempo da delicadeza…’

Mesmo assim ele não controlou suas lágrimas ao ver, sentada na cadeira, uma garotinha segurando uma foto dele.

‘…onde não diremos nada, nada aconteceu…’

Foi ao seu encontro e, timidamente, tocou seu rosto, sendo recebido com um sorriso tímido mas iluminado da menina. Um sorriso que ele jamais esqueceu, mesmo depois de acordar. O sorriso onde reconheceu traços de si mesmo, misturados com traços da mulher. Era só um sonho?

‘…apenas seguirei como encantado ao lado teu…’

Ele se ajoelhou e, repousando sua cabeça no colo da menina, chorou enquanto ela afagava seus cabelos até adormecer assim.

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Faces do Teatro

Fevereiro 22, 2008 · Deixe um comentário

Lápis tinta
maquiagem pincel
calça cinta
camisa e chapéu

roteiro deixa
procênio coxia
ensaio queixa
noite e dia

choro sorriso
comédia drama
concentrado e preciso
intenso inflama

texto discorre
centrado insano
vive e morre
cai o pano

é palco, é entrega
é seu próprio caminho
é um verso do corpo
é um louco sozinho

são as faces do teatro
narrando a versão
é poema, é vida
e não encenação

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Questionamentos

Fevereiro 21, 2008 · 1 Comentário

E quando chega aquela sensação de sufocamento, quando a angústia se agiganta em seu peito e parece gritar palavras sem sentido, desconexas, que começam e não têm fim, brotando continuamente sem sair pela boca, mas pelos poros!, num suor desenfreado de letras ininteligíveis e brutais.

E quando o peso nas suas costas parece centenas de vezes maior que o peso de um ônibus espacial, e tal qual te faz viajar, mas pelo espaço sideral de sua vergonha e seu arrependimento, mostrando que a culpa é infinitamente maior que sua razão lhe dizia mas, mesmo assim, você finge e mente pra si mesmo buscando uma redenção sem saber que ela se afasta cada vez mais.

E quando a dor, não aquela dor física que passa em alguns instantes, mas aquela dor lancinante que corta sua essência, seu pensamento, seu sonho, aquela dor que te deixa impotente e frágil como uma fina ponta de gelo, prestes a quebrar ou derreter, quando essa dor te pega e te destrói e te faz ver que você é miserável e incapaz.

E quando nada mais parece bom e justo, e realmente não é, e essa certeza provoca a perspectiva de que o pior ainda não passou, mas está logo aí, metendo o pé na sua porta, preparado pra te matar às vésperas do renascimento de seu pensamento escolhendo o terreno pra cavar a terra onde será a sepultura do seu espírito doente demais.

E quando você está só, no canto de seu colchão, pensando durante três segundos em tudo que fez de memorável na vida e conclui que é tão medíocre quanto aqueles que você critica e aponta em seu discurso ensaiado preparado exclusivamente pra alimentar a boca minúscula do corpo raquítico do seu ego exposto em poses viscerais.

E quando você tenta manter a postura perante as outras pessoas e mostra seu rosto firme, impassível, escondendo o que você sente moldado dentro de si, aquilo que te corrói e consome dia a dia, a tristeza soturna de saber que não é tão pleno quanto parece e que espera frustrado por um sentido para essa vidinha tola e boçal e tristemente fugaz.

E quando, num momento claro de lucidez, você se dá conta das possibilidades fantásticas que um dia surgiram na sua frente e você, por comodismomedoarrogância, escolheu outro rumo e não fez o principal pra não pensar no que poderia ter sido, e se arrepende tanto que isso incomoda seu sono diariamente, sem dó, sem paz.

E quando todas essas sensações te espancam, te cortam, te rasgam, te mastigam, te esfregam, te cospem, te sufocam, te sugam até o último suspiro de esperança vã que insiste em resistir dentro de você em vez de se entregar ao implacável poder da realidade crua e cinza que cerca sua vida e te emburrece e aborrece mais e mais.

E quando tudo isso acontece, o que você faz? O que você faz?!

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O sorriso da bailarina

Fevereiro 21, 2008 · 3 Comentários

Veja, Bailarina!
Veja aquele palco onde você sonha tanto estar!
Suba nele, dê um salto, eu já te encontro lá,
Antes quero ver sua alegria de longe, assim…

Solta, Bailarina!
Solta agora essa força que tem dentro de você
Transforma a moça em criança, enquanto ninguém vê
E brinca com sua alma solta, assim…

Ouça, Bailarina!
Ouça o som compassado do seu coração
Encontra o tom adequado, crie sua canção
Compõe sua sinfonia de vida e nos mostre, assim…

Canta, Bailarina!
Canta e conta a história mais bela que existe
Procura na sua memória aquela lembrança mais triste
Transforme em poesia e declame, assim…

Sinta, Bailarina!
Sinta sua delicadeza, sua pureza, seu vigor
Entenda a sutileza da beleza do amor
Desliza no palco sua coreografia, assim…

Dança, Bailarina!
Dança que eu me encanto com seus gestos aí em cima
Lança no seu pranto os seus versos, minha menina
Me chama ao seu lado enquanto eu te aplaudo, assim…

Abraça, Bailarina!
Abraça meu abraço enquanto falo ao seu ouvido
Me mostra a ponta do laço de seu encanto sofrido
Deixa que eu desembaraço e cuido de você, assim…

Sorria, Bailarina!
Sorria, minha menina!
Sorria, Bailarina!

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Minha Necessidade

Fevereiro 20, 2008 · Deixe um comentário

Preciso conhecer a Itália.
Preciso conhecer o Nordeste.
Preciso conhecer a mim mesmo.

Preciso de um copo de água.
Preciso de um prato de comida.
Preciso de um lápis e um papel.

Preciso visitar meus amigos.
Preciso abraçar minha família.
Preciso rever minha casa.

Preciso tanta coisa pra ser feliz.
Preciso tão pouco pra ser feliz.
Preciso é ser feliz.

Preciso plantar um livro que gere frutos.
Preciso escrever um filho que toque as pessoas.
Preciso fazer uma árvore que se multiplique.

Preciso de um tempo.
Preciso de mais tempo.
Preciso do meu tempo.

Preciso amar ao próximo como a mim mesmo.
Preciso amar a mim mesmo.
Preciso amar.

Preciso lavar a alma com a chuva.
Preciso respirar ao ver o céu.
Preciso chorar.

Preciso uma lágrima.
Preciso um sorriso.
Preciso um abraço.

Preciso um beijo.
Preciso do seu beijo.
Preciso somente do seu beijo.

Preciso acabar o que comecei.
Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente.
Salve Chico!

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